"CONSELHOS MUNICIPAIS DE EDUCAÇÃO SÃO GRANDES EXEMPLOS DE BUSCA POR UMA GESTÃO DEMOCRÁTICA"

Os conselhos municipais de Educação são ferramentas fundamentais na democratização de uma rede de ensino, já que permitem, em sua composição, que membros da sociedade civil participem e discutam os rumos do sistema de ensino da cidade. A opinião é da professora Nelma Rago, coordenadora estadual da União dos Conselhos Municipais de Educação (Uncme) no Rio de Janeiro e presidente do Conselho Municipal de Vassouras (RJ).

Hoje, o Brasil tem 847 cidades sem conselho municipal de Educação. O número representa 15,2% do total de municípios do País. Os dados são da Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e são referentes a 2011, mas foram divulgados apenas no final do ano passado (saiba como funcionam os conselho clicando aqui).

Os dados mostram ainda que o total de cidades que contam com o órgão em seu sistema educacional aumentou em 315 municípios entre 2009 e 2011 (para saber mais, cliqueaqui).

Para completar a série de reportagens sobre conselhos municipais de Educação, a professora Nelma Rago concedeu a seguinte entrevista ao Todos Pela Educação, sobre a importância desses órgãos dentro da rede municipal:

Por que os conselhos permitem uma gestão mais democrática da Educação municipal?
A existência dos Conselhos Municipais de Educação (CME) na gestão de políticas educativas nos municípios pressupõe uma mudança de paradigma, da gestão pública burocrática para o modelo descentralizado e participativo na defesa dos interesses da universalização dos direitos básicos da cidadania. Quando atuantes, os conselhos municipais são grandes exemplos de busca da gestão democrática – afinal, os integrantes dos conselhos podem participar da elaboração da política educacional. Neles, o presidente é eleito pelos seus pares e os representantes de cada segmento são eleitos também pelos seus pares.

Os CMEs são órgãos nos quais as decisões precedidas de análise e debates com a sociedade civil são tomadas com base no diálogo e no entendimento. Assim, a sociedade civil é capaz de interferir nas decisões políticas e fazer com que as suas demandas sejam inscritas nas agendas governamentais locais.

Como é possível democratizar ainda mais os conselhos municipais?
É fundamental que o CME tenha condições objetivas de funcionamento. Cabe ao órgão executivo, ao qual o CME está vinculado, assegurar dotação orçamentária e recursos financeiros específicos, provenientes do orçamento da Educação.

Embora o orçamento do CME integre o orçamento da Secretaria de Educação, o CME deverá ter uma rubrica própria administrada com autonomia. Além disso, é importante que o secretário de Educação não seja membro nato do Conselho, para que a instituição atue livremente como órgão de Estado. É importante também que o presidente do conselho seja eleito por seus pares.

Como o conselho pode atuar na discussão do plano municipal de Educação?
O plano municipal de Educação é importante por ser uma sistematização das metas do município. De certa forma, é um termo de compromisso a ser trabalhado, divulgado e multiplicado. Entendo que a elaboração do plano pressupõe a participação da sociedade na discussão e na elaboração de proposições de ações concretas para aprimorar a qualificação da Educação do município. Se os CMEs são a voz da sociedade falando ao governo, me parece que esse diálogo se torna mais democrático, participativo e plural.

Os conselhos municipais não são obrigatórios por lei. Qual a importância de o município ter sua própria rede e, portanto, seu próprio conselho?
A criação dos sistemas municipais de ensino deu a eles a opção de assumir a autonomia e abriu a possibilidade de uma maior participação social nas decisões de política local. Sendo os conselhos municipais de Educação órgãos de Estado com ampla representação da sociedade, fica caracterizada a participação democrática na tomada conjunta de decisões e na participação da elaboração da política educacional do município. Todos devem ser vistos como parte fundamental do sistema.

Das funções do conselho, qual é a mais importante? Por quê?
Na minha opinião, a mais importante das funções de um conselho de Educação é a normativa. Ela é uma decorrência da natureza legislativa dos conselhos. É ela que dá a verdadeira distinção de um conselho. No âmbito de sua competência, os CMEs exercem uma função complementar em relação ao Poder Legislativo uma vez que lhes cabe orientar e disciplinar a vida educacional, por meio de normas, diretrizes e indicações sobre atitudes e comportamentos.

A função normativa é aquela pela qual um conselheiro interpreta a legislação com os devidos cuidados. A função normativa aproxima-se da organização da Educação nacional para, dentro da lei, interpretando-a, aplicá-la em prol das finalidades maiores da Educação escolar.