Ao longo dos anos, desde o primeiro Mapa da Violência divulgado em 1998, viemos tratando os acidentes de trânsito como um capítulo privilegiado da violência letal que cerceia milhares de vidas em nossa cotidiana convivência. Apresentadas como fatos casuais, acaso, obra do destino, preço do progresso etc., constrói-se uma imagem de fatalidade em torno do problema que foge do controle e da responsabilidade das instituições humanas, já a partir da própria nomenclatura.
Com este trabalho, estamos tentando desconstruir essa imagem prevalecente na opinião pública, na mídia e, principalmente, nas instituições públicas responsáveis pela gestão do trânsito e da mobilidade territorial. Nesse contexto, nos últimos mapas começamos a olhar com preocupação o grave crescimento das mortes de motociclistas e, com maior apreensão ainda, as justificativas e alegações institucionais de culpar os motociclistas pela sua própria morte. Além disso, esse incremento na mortalidade dos motociclistas se inscreve num marco mais amplo: o do progressivo agravamento global da violência no trânsito, que levou as Nações Unidas a proclamar a Década de Ação pela Segurança no Trânsito 2011-2020, procurando, primeiro, estabilizar e, posteriormente, reduzir as cifras de vítimas previstas, mediante a formulação e implementação de planos nacionais, regionais e internacionais.
E não era para menos. Os estudos divulgados em 2010 e 2013 pela Organização Mundial da Saúde para a formulação e suporte a essa resolução1 são estarrecedores, indicativos de uma séria epidemia letal no trânsito das vias públicas do planeta:

Dada a relevância e a magnitude do problema, julgamos necessário realizar um estudo específico sobre o tema e divulgá-lo em separado. Mas, diferentemente dos mapas anteriores, no presente estudo focalizaremos a mortalidade de motociclistas, por dois motivos centrais:

– Quedas significativas na mortalidade de pedestres;
– Leve aumento da mortalidade de ocupantes de automóveis e
-Pesados aumentos na letalidade de motociclistas.
 

1 World Health Organization. Global status report on road safety 2013: supporting a decade of action. Switzerland. WHO, 2013. Organización Mundial de la Salud. Informe sobre la situación mundial de la seguridad vial: es hora de pasar a la acción. Suíça. OMS, 2010.